Eleições Presidenciais

Desmistificando os resultados

 

por Afonso Lopes a Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011 às 21:15

A vitória eleitoral do candidato Aníbal Cavaco Silva deve ser analisada com   maior  rigor  e   realismo,  pois  nada tem  de   espectacular  e, necessariamente, não significa que se trate de um político popular ou muito desejado.  Se considerarmos um universo eleitoral de pelo menos 9.600.000 eleitores, e levando  em consideração  o elevado valor da abstenção  (52 %),  conclui-se  muito facilmente que, na prática, o candidato  vencedor  teve apenas uma votação líquida de 23 %, o que, traduzido em números reais, não ultrapassa 2.231.000 votos a seu favor. Não me parece que esta cifra possa justificar  no candidato a  convicção de     pensar e muito menos declarar  que tem uma legitimação autêntica para se  considerar o presidente de todos os portugueses. Quando  pouco mais de 23% de uma população eleitoral inteira vota num candidato,  fica-se com a clara  convicção de que ele  não a motiva, nem é do seu agrado. Não sou partidário nem simpatizante dos abstencionistas, porque considero a sua atitude uma absoluta falta de responsabilidade cívica. O facto de poderem ter razões muito fortes para não acreditar nos candidatos, o que é nitidamente o caso dos portugueses, não justifica a sua abstenção. Em Portugal, pelo que a experiência nos tem demonstrado, as abstenções têm enfraquecido profundamente a nossa democracia e são responsáveis pela construção e pela  existência de uma sociedade completamente desequilibrada e perversa,  em que prevalece a falta de justiça e a consequente pobreza de uma enorme fatia da população portuguesa. Com a abstenção triunfa sempre uma oligarquia rica que passa a receber todos os favoritismos da lei e que explora impiedosamente as classes subjacentes. As classes mais débeis encolhem-se, acobardam-se e desistem de lutar, conformando-se com a sua triste sorte. Com este tipo de sociedade não se pode construir um país democrático saudável.  O político, que os portugueses acabaram por escolher nestas eleições para supremo magistrado do país, é a meu ver um conservador fanático, um elitista que já demonstrou sobejamente não ter sensibilidade suficiente para perceber  os grandes problemas do povo e  é também  um refém excessivo das suas obrigações constitucionais. A meu  ver, nada fará que possa comprometer a estabilidade política do seu cargo, mesmo que possa  saltar por cima das suas próprias convicções, para ter de aprovar diplomas que não tenham nada de moral. Confesso que acredito muito pouco ou quase nada na sua acção como garante do regular e justo funcionamento das restantes instituições do poder. Os últimos cinco anos no exercício do seu  mandato  demonstraram plenamente que o Presidente deixou os portugueses frustrados. Deve dizer-se que as eleições do dia 23 de Dezembro foram verdadeiramente decepcionantes e não trouxeram, na minha opinião, nenhuma solução para a crise que estamos a viver. Elas provaram, pelos resultados obtidos, que o povo português está completamente saturado dos partidos e dos políticos,  que dificilmente os suporta e já não acredita na farsa democrática que têm estado a representar.

É de salientar que, pela primeira vez, um candidato independente, Fernando Nobre, tenha conseguido trazer ao pleito eleitoral um sinal positivo de esperança,  obtendo um resultado expressivo, não obstante  ter realizado uma campanha pobre,  exclusivamente assente num belo movimento de cidadania.  Os seus 14 %, certamente  muito maiores se não houvesse tantos abstencionistas, devem justificar com toda a legitimidade à formação de um novo partido político com assento parlamentar, que possa representar claramente o descontentamento geral dos portugueses. Ouso deixar a sugestão ao candidato. Pessoalmente considero que, se a sua intervenção nestas eleições se limitou apenas a provar que  os portugueses não se revêem nos partidos políticos, que disputam  os cargos da administração governamental e  não confiam nos políticos que os exercem, então nada de útil resultou da sua participação nas eleições. Ficámos na mesma ou pior  e com a agravante de conservar na boca um amargo gosto de pura inutilidade. Não basta pensar-se que a cidadania pode  funcionar. É necessário colocá-la mesmo a funcionar para bem de Portugal e dos portugueses.

Fernando Nobre revelou-se mais tarde um ambicioso político, cujos objectivos nada tinham de nobre e de patriótico. O seu conceito de cidadania foi apenas uma divisa eleitoral sem qualquer base verdadeira e honesta. Este candidato, que teve uma grande adesão popular, acabou por cair em completo descrédito e foi uma verdadeira decepção para os portugueses que nele confiaram e que o apoiaram. Eu fui um deles, devo confessá-lo.

 

 

 

Afonso Soares Lopes     

 

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