A QUEIMADA

     A Queimada

                                                                                                    

     O fogo na savana é um espectáculo impressionante e inesquecível. As chamas, acossadas pelo vento, espalham-se com grande rapidez por toda a parte e a savana transforma-se num verdadeiro inferno. Mas, o fogo na savana africana não é sinal de destruição total. Não é exactamente a mesma coisa do que o fogo numa floresta de pinheiros  ou de outras coníferas. Estas, quando ardem, morrem definitivamente  e não voltam a rebentar. A savana não se comporta da mesma forma. Nela, o fogo é antes um sinal de renovação, necessário à continuação da própria vida.

   O capim alto arde e crepita ruidosamente e os insectos que nele se abrigam, apanhados de surpresa pelo fogo, lançam-se em voos precipitados fugindo para salvar a vida.  Essa  fuga raramente tem sucesso, porque a passarada, atenta aos insectos, não lhes dá tréguas e não os deixa escapar. Os que não conseguem fugir são apanhados pelas chamas e morrem queimados e estorricados. Os pequenos roedores buscam a correr refúgio seguro nas suas tocas subterrâneas. Quando as não  conseguem alcançar, correm alucinadamente à frente do fogo, até que, esgotados, acabam por sucumbir. É a hora dos caçadores  os apanharem facilmente, pois para isso colocaram o fogo na mata. Tudo arde com uma fúria inaudita e ruidosa na savana e as grandes manadas de antílopes correm num tropel desordenado.

    Os batedores que incendiaram a mata e preparam agora o cerco vão avançando e atravessam a linha de fogo, colocando-se na retaguarda entre os animais e  o fogo. Não tendo por onde recuar, os animais avançam espavoridos a caminho das armadilhas onde  os caçadores os  esperam.Os batedores soltam gritos agudos e contínuos que se transformam num ulular permanente e  assustador. Os animais  completamente cercados pelo fogo e pelos homens que avançam de todos os lados  estão totalmente   desesperados e não sabem que direcção seguir. Cansados de correr,   sedentos e aterrorizados, não conseguirão resistir por muito  mais tempo. O único lugar que não está em chamas está  repleto de caçadores armados que os esperam com as suas zagaias, lanças, machados e cães, para os matar. Os cães, pressentindo a sua aproximação,  ladram furiosamente.

  Acácio, meio aturdido pelos gritos e pelo continuo e furioso ladrar dos cães, sente já uma forte dor de cabeça, mas segura com grande nervosismo a sua fiel caçadeira de repetição, pronto a atirar sobre qualquer animal de porte razoável que possa querer escapar do apertado cerco do fogo e dos batedores. Os pequenos antílopes não são para ele. Os africanos encarregam-se facilmente deles com  as redes,  com os cães e com as suas armas gentílicas e artesanais.

                                                       

Subitamente, três quissemas adultas saem em galope acelerado de trás de umas moitas, a uns cinquenta metros de Acácio. O comerciante é apanhado de surpresa, mas reage rapidamente. Levando a arma à cara visa o macho que lidera o pequeno grupo de antílopes. A distância encurta-se e quando o animal reduz a distância para uns escassos 20 metros, Acácio aponta ao seu peito, visando a  zona mais próxima do coração e dispara o primeiro tiro. O animal recebe os projecteis de chumbo grosso em cheio e vai cair a estrebuchar a uns dez metros dali, mas não está ainda morto. Tenta reerguer-se para fugir, mas não consegue. Os cães e os caçadores africanos abatem-se com uma fúria inaudita sobre ele, crivando-o de flechas e lanças. Não tem qualquer hipótese de fuga nem de sobrevivência e ninguém sentirá por ele qualquer tipo de compaixão. As duas fêmeas, que o acompanhavam, inverteram o sentido da corrida e procuraram regressar ao ponto de onde vinham, mas  era tarde demais e foram cruelmente abatidas pelos africanos.

Acácio era caçador, mas tinha por princípio ético dar aos animais a chance de poderem sobreviver pela fuga.  Ele não contava nada  ter de assistir a um espectáculo tão cruel e ficou profundamente vexado consigo mesmo.

No momento em que  estes sentimentos o invadiam, ouviu um grande alarido que parecia vir da sua retaguarda e, meio assustado, colocou-se em guardapara não ser apanhado de surpresa. Subitamente, irrompeu do mato numa corrida desenfreada uma enorme hiena, perseguida pelos cães e pelos africanos.                 A hiena é um animal cobarde, mas quando acossada e sem possibilidade de fuga,  torna-se muito perigosa.  Possui uma dentadura terrível, apta para quebrar os ossos mais duros.                                                                                                                 

 Era preciso fazer qualquer coisa para a deter antes que se lançasse sobre alguém. Acácio reuniu o que lhe restava do seu sangue frio e apontou o melhor que conseguiu, evitando atingir algum dos cães ou dos caçadores que perseguiam o corpulento animal. Quando este apareceu na sua linha de mira a uma distancia não superior a quinze metros, abriu fogo e atingiu a hiena na parte frontal do peito. O animal parou subitamente, quando surpreendido recebeu o impacto dos projécteis e Acácio sem perda de tempo abriu novamente fogo. O segundo tiro foi um autêntico golpe de misericórdia que fez o animal cair de imediato. Aquela grande hiena malhada já não faria mal a ninguém, acabando por sucumbir com mais um tiro dado à queima roupa. Simultaneamente, a correr sem nenhuma orientação, as cabras do mato vinham entregar-se  sem resistência às mãos dos africanos e aos dentes dos cães. O soba estava delirante, porque a caçada tinha sido um sucesso e a aldeia ia ficar suprida de carne por  muito tempo                                                                                                 

Este texto faz parte da obra “Café Amargo, Angola em Tempos de Guerra”. 

Esta entrada foi publicada em Café Amargo, Meus livros, obras do autor. ligação permanente.

Uma resposta a A QUEIMADA

  1. Senhor Escritor…

    O senhor fica aguçando o nosso paladar com estas pitadelas do livro “Café Amargo”…
    Hummmmmmmmmmmmmmm
    Não vejo a hora de tê-lo nas mãos, numas tardes de leitura prazerosas, a viajar no tempo, pela África, conhecer Angola, sentir os corações humanos…

    Tomara que seja breve este lançamento…
    Conto as horas e os minutos. Ivanir Faria.

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