Café Amargo, João parte para Luanda

Um curto trecho do livro “Café Amargo”…… páginas 469 a 470

João   resolveu  não  dizer  aos pais  que partiria  no  dia seguinte para o Huambo para depois seguir para Luanda.

Tinha já decidido fazê-lo um pouco antes  de pedir ao pai que o levasse à estação do Lépi  para seguir de comboio para Nova Lisboa. Aurora estava muito bem disposta e irradiava felicidade por ter o filho em casa. Pensava que ele tivesse vindo para passar uma temporada com eles e julgava mesmo que ele iria  ao Huambo  para ver antigos condiscípulos e para sondar perspectivas de emprego. Nada a fazia desconfiar que João iria arrumar a sua vida por outras paragens. De todos, a única pessoa que sabia das intenções e planos de João, era Severino.

Acácio, como sempre muito falador, quis saber como lhes tinha corrido o dia na aldeia de Kalupira.

─ Então, Severino, quais são as boas notícias de Kalupira e do seu aldeamento?

─ Olhe,Padrinho, as coisas estão a correr muito bem.  Cada vez há mais crianças a frequentar a escola e já não há lugar para todas as que aparecem.

Vamos começar  já a construir um novo espaço para as poder abrigar. O interesse das crianças da sanzala em aprender a ler está a aumentar cada vez mais de dia para dia. Os pais é que não estão a gostar muito disso e  queixam-se constantemente  dos filhos, pois eles  não os quererem ajudar nas lavras.

─ Bem, isso era de  prever que viesse a acontecer.

─ Essas crianças vão crescer e quando chegar a altura de orientarem as suas vidas, vão poder sair da aldeia com mais segurança para tentarem encontrar trabalho noutros locais. A agricultura artesanal está a tornar-se cada vez menos compensadora e muitas aldeias já não suportam bem o seu aumento demográfico.

O problema pode vir a tornar-se muito sério daqui a alguns anos, pois não haverá trabalho qualificado para tantos jovens.

─ E tu, João, ainda não nos dissestes o que vais fazer agora, depois de teres terminado o teu curso de agrimensor.

─ Olhe pai, eu ainda não vos tinha dito nada e reservei isso para os últimos dias da minha estadia convosco aqui no Bongo. Não queria entristecer-vos.

Eu namoro uma moça de Luanda com quem, naturalmente pretendo casar-me. O pai da minha  Cristina, é um comerciante rico de Luanda, que tem várias propriedades de café na zona do Congo Português.

As suas fazendas estiveram temporariamente abandonadas durante o período crítico do terrorismo, mas agora, que todo o Norte foi libertado e já está sob o perfeito controlo do nosso exército, a vida agrícola da região está a regressar muito rapidamente à normalidade.

O meu futuro sogro, falo assim, porque acredito que o meu casamento com a filha é irreversível,  deseja que eu vá dirigir a recuperação agrícola da sua maior propriedade naquela área.  A sua proposta é de natureza irrecusável, principalmente porque virei a fazer parte da sua família dentro de pouco tempo e serei co-proprietário da fazenda.

A notícia súbita de João, perturbou grandemente o semblante do pai, que revelando uma certa indignação reagiu desta forma: ─ Eu e a tua mãe estávamos a pensar que tivesses vindo ao Bongo para ficares por aqui, perto de nós. O teu curso permitiria arranjares, trabalho fácil, abundante e bem remunerado entre nós, sem precisares de te afastar daqui e de correres riscos desnecessários.

Eu sinceramente não acredito que o Norte de Angola esteja já verdadeiramente pacificado. As coisas não são  assim tão fáceis,   

 

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