Memórias do Brasil – nos anos 70

     Extraído das Paginas 53 e 54 do livro “Verde e Amarelo, um encontro com Cristo” 

     Havia dias em que os vendedores eram obrigados, pelo adiantado da hora, a pernoitar em lugares  pequenos e sem condições. Eram os ossos do ofício. Hoje, depois de muitos anos passados sobre essas experiências, eu sei dar valor aos homens de vendas que percorrem as estradas de todo o Brasil, levados pela seu profissionalismo e pela sua ambição.

   A minha primeira semana de viagem estava a decorrer de forma animadora. Fui  bem recebido pelos clientes da firma  e  consegui algumas boas notas de encomenda. Visitei novas firmas de peças e acessórios, que não faziam ainda parte dos clientes da Ginjo, e consegui angariar novos clientes.    Senti-me verdadeiramente animado e satisfeito comigo mesmo e com os resultados do meu trabalho.

   Estávamos em 1977 e o Brasil encontrava-se a viver um período de lenta recuperação económica, sob a mão firme de um Governo Militar, presidido pelo General Ernesto Geisel.  Geisel era um militar austero e bastante prestigiado, que  procurava  governar o Brasil  com seriedade, ordem e disciplina, o que, diga-se em abono da verdade, não era nada fácil num país da América Latina. Geisel chegara ao poder presidencial em 1974, numa altura em que o Brasil enfrentava grandes dificuldades políticas e económicas. O Brasil, nessa altura, tinha chegado praticamente ao fim do seu tão proclamado milagre económico, facto  que colocou o Regime Militar em grande crise de autoridade. A dívida externa do país era enorme e a inflação atingira os 34,5%. O Brasil, tal como outros países do mundo, tinha sido fortemente afectado pela crise Internacional do Petróleo de 1973. Geisel compreendeu que não havia outra alternativa para poder governar, senão a de propor, a todas as forças políticas em presença, um projecto de abertura, gradual e seguro. Mas a oposição ao  governo militar crescia de dia para dia. As forças vivas do país estavam a exigir uma mudança mais profunda na governação. Os próprios militares, seus companheiros de armas, não estavam satisfeitos, pois não concordavam com a liberalização e desmilitarização do Governo que  Geisel estava a fazer. Este viu-se então entalado entre a espada e a parede.

   Apesar de todo este intrincado panorama político que se vivia no Brasil, no momento em que eu realizava esta viagem comercial, a actividade económica,  embora  amortecida,  continuava  a progredir  e as firmas não podiam parar à espera de melhores dias. Os negócios tinham de se realizar e as empresas tinham de sobreviver e crescer. A inflação agravava-se sempre, mas os brasileiros já se tinham conformado com ela e já tinham desenvolvido os mecanismos necessários para minorar os seus efeitos negativos. Os preços aumentavam sempre  mês após mês, ou de semana para semana, sem qualquer aviso prévio. As peças e os acessórios de automóveis não escapavam à subida dos preços e estavam sempre a flutuar. Mas a Ginjo respeitava, por um período determinado de tempo, o preço das notas de encomenda. Isso estimulava os stands a comprarem, porque com isso ganhavam mais do que com  o dinheiro parado nos Bancos.

  Se bem me recordo, a  gasolina nessa altura, custava cinco cruzeiros por litro. Parecia-me um preço razoável, porque  não possuía outros valores de referência, em relação ao  passado.

  Eu encarava a minha actividade de vendedor itinerante com bastante ânimo e com uma vontade muito forte de vencer, mas o que mais me custava era saber que tinha duas pessoas em S.Paulo que precisavam do meu apoio e da minha presença para se poderem sentir bem e seguras. Nem sempre me era possível contactá-los pelo telefone, pois havia muitas localidades, situadas nos pontos mais remotos, que ainda não dispunham de telefone. Sempre que eu voltava ao eixo viário da Rio-Baía, para despachar o malote de correio para a Ginjo e para apanhar o malote da Ginjo, eu podia enviar as minhas cartas e receber as cartas de minha mulher. Algumas dessas cartas não eram verdadeiramente aquilo que eu desejava ler, pois, em vez de me animarem e encorajarem, acabavam por me entristecer e deprimir.    Relatos de tristeza e de desânimo, dificuldades diversas, problemas relacionados com o estado de saúde do Pedro, que tinha frequentes crises de bronquite asmática, tudo se conjugava para me criar preocupações e mal estar. Na verdade, a minha  viagem comercial, dada a extensa área que eu tinha de cobrir, era  longa e, ao fim de quinze dias, a saudade já principiava   a roer-me  e a magoar-me. Ao fim de um mês de viagem,  atingia um verdadeiro estado de saturação. A minha única distracção durante a viagem era o trabalho. Depois de atender os clientes, regressava ao Hotel ou à Pensão, para descansar e para jantar. Antes de me deitar, tinha de preparar as encomendas e actualizar os preços das tabelas, que nunca deixavam de  chegar pelo correio………..

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