QUANDO ESCREVI O LIVRO “PORTUGAL NA ROTA DA VERGONHA”

Quando escrevi o livro “Portugal na Rota da Vergonha” publicado pela Chiado Editora, estava longe de poder imaginar que se estava a iniciar o processo de destruição de Portugal, um país com séculos de existência, que sempre batalhou para manter a sua independência política e económica. O epílogo da 2ª Guerra Mundial tinha começado a mudar a História e a Geografia do mundo. O continente africano e outras regiões do mundo iam poder enfim conhecer o fim da colonização, espreguiçar-se para alcançar a liberdade e passar por tremendas convulsões, antes de se afirmarem como países independentes. Os povos africanos que viviam em regimes coloniais, puderam iniciar e realizar o seu processo de libertação, porque o equilíbrio de forças do mundo se rompera tragicamente. Os Estados Unidos da América face ao crescente poder da União Soviética e dos países do Leste europeu e aos resultados da guerra na Europa e na Ásia, tinham perdido a sua liderança incontestada. As Nações Unidas abriram então as suas portas aos países emergentes, concedendo-lhe o direito de participação nos destinos da humanidade, dando-lhes também o direito de voto. Os povos dominados pelos países coloniais procuraram desenvolver os seus indispensáveis apoios jogando na bipolaridade em que o mundo se dividira. Enquanto os Estados Unidos e a Inglaterra puderam ser as nações mais fortes e poderosas da Terra e tiveram necessidade de respeitar tratados realizados com algumas das nações que possuíam colónias espalhadas pelo mundo, quase não se conseguiu alterar o figurino colonial. A necessidade que os Estados Unidos tiveram de respeitar um tratado de aliança com Portugal para poder utilizar a base aérea das Lajes nos Açores, durante a 2ª guerra que se travou na Europa contra as poderosas forças do Eixo, fez com que o nosso país beneficiasse de ajudas financeiras e de apoio político por parte dos EUA.  Terminada a Guerra e com o desenvolvimento de um sistema balístico intercontinental capaz de transportar ogivas nucleares a longas distâncias, a estratégia da guerra alterou-se profundamente e em consequência disso, aconteceram dois factos relevantes; a Marinha de guerra perdeu a importância que possuía como arma dissuasora e os aviões-bombardeiros  tornaram-se mesmo dispensáveis para conter as ameaças inimigas. Portugal que como sempre se deixou adormecer e não soube preparar-se para a nova realidade mundial, achou que podia conservar o seu Ultramar e pensou na integração nacional utópica dos seus  territórios ultramarinos. Mentes políticas inteligentes deveriam ter percebido a tempo, que essa integração não tinha qualquer viabilidade, tendo em conta a completa falta de identidade comum e de interesses dos vários territórios ultramarinos de Portugal. O Governo português do Estado Novo nem sequer se preocupou em garantir aos territórios ultramarinos o direito à autodeterminação ou à  discussão do seu futuro. A teimosia do Governo em querer resolver pela força um problema muito complexo que exigia bom senso e longas negociações políticas, acabou por deitar tudo a perder e causar sofrimento e morte a milhões de africanos e europeus, destruindo completamente o muito que já se tinha alcançado em matéria de convívio e relação entre etnias diferentes. Portugal tinha no seu Ultramar a garantia da sua sobrevivência económica, pois, nessa altura, quase cem por cento da sua incipiente indústria tinha no Ultramar o seu alvo de exportação.

A viragem brusca que Portugal teve de fazer para se voltar para a Europa e ter a Europa como alvo das suas exportações, não teve êxito. Isso deveu-se  principalmente à falta de honestidade da classe política e dos governantes portugueses, que canalizaram em seu proveito pessoal as ajudas que a União Europeia forneceu ao país para que ele pudesse ajustar-se  à essa nova realidade. O problema é afinal sempre o mesmo, os portugueses olham exclusivamente para os seus interesses pessoais em vez de olharem para o país e para a sua necessidade de mudança. Tenho pensado muitas vezes que este espírito e mentalidade foram os verdadeiros responsáveis pela situação em que nos encontramos hoje.  Parece-me bem que os portugueses têm extrema dificuldade em pensar de outra forma e preferem mais quebrar do que torcer.

Afonso Soares Lopes

 

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em POLÍTICA com as etiquetas . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s