DIFERENÇAS ABISMAIS QUE NOS SURPREENDEM E INDIGNAM

Artigo publicado na Gazeta do Povo – na Secção Vida e Cidadania

 A falta de mordomias (na Suécia!) que choca os brasileiros

A jornalista brasileira Claudia Wallin, que mora em Estocolmo há 12 anos, mostra-nos como é o dia a dia de políticos e juízes deste país europeu.

 

17/10/2015  15h00  Rogerio Waldrigues Galindo Claudia Wallin, autora do livro “Um país sem excelências e mordomias”

Texto publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2015

Uma deputada que foi execrada nos jornais por pegar táxi com dinheiro público, ao invés de andar de trem. Parlamentares que moram em apartamentos minúsculos e que lavam a roupa em lavanderias comunitárias.  Juízes sem nenhuma mordomia. Esse é o retrato da Suécia que a jornalista brasileira Claudia Wallin, que mora em Estocolmo há 12 anos, faz nos seus livros e reportagens. O livro – Um país sem excelências e mordomias está na terceira reimpressão e vem fazendo sucesso por mostrar o avesso da política brasileira. Nesta semana, a jornalista esteve em Curitiba e deu uma entrevista à Gazeta do Povo sobre o seu trabalho.

 Como tem sido a receptividade da classe política a essa divulgação da ausência de mordomias dos políticos suecos?

Da classe política em si eu não tenho tido nenhum retorno, a não ser do Eduardo Jorge (PV) na época da campanha presidencial. Ele gravou um programa lendo o livro. O que acho impressionante é o retorno dos leitores. Recebo centenas de mensagens de vários lugares do Brasil, de cidades muito pequenas, o que eu acho muito interessante. Semana passada recebi um e-mail de uma pessoa que mora na fronteira com o Uruguai dizendo que os moradores vão fazer uma vaquinha para colocar o livro em todas as escolas da cidade.

O facto do livro estar sendo reimpresso reforça que existe uma curiosidade em se conhecer um sistema diferente e uma indignação com o sistema brasileiro?

O que eu acho importante é que isso não é um livro para se dizer “olha como os suecos são maravilhosos e os brasileiros é ruins”. É exatamente o contrário. O que eu quero mostrar é que sou uma observadora de uma sociedade possível. É possível você ter uma democracia forte, transparente e justa, que não dê regalias a políticos e  a juízes e onde a corrupção seja um fenómeno relativamente raro. Isso não é uma coisa que se constrói da noite para o dia. É um processo de evolução. Quem costuma dizer que o Brasil não tem jeito esquece-se que os países também se transformam. A Inglaterra era uma nação de piratas, como a Holanda. Se você olhar para trás na história, os suecos eram vikings, trombadinhas da época, promoviam arrastões em terras alheias. Ou seja, é um processo de evolução. Eles [os suecos] não são melhores do que ninguém. O ser humano é o mesmo. O sistema é transformado pelas reformas que ocorrem no país. São as instituições que se aperfeiçoam. A reforma política, a reforma educacional, a reforma do Judiciário, a reforma administrativa. Esse conjunto de aperfeiçoamentos foi o que eles fizeram ao longo dos anos. Também foram ajudados por uma forte moral luterana – aqui nós podemos dizer que temos a moral católica – e pelo facto de a igualdade ser um valor profundo nas sociedades escandinavas. Não é uma utopia. É uma sociedade real.

No Brasil não existe essa tradição igualitária. Como lidar com isso?

O valor da igualdade na Suécia é muito antigo e muito próprio dos povos escandinavos. Aqui o que temos não é só uma falta de igualitarismo, é um anacronismo. A Suécia pode ser um exemplo extremo dessa falta de mordomias, privilégios e corrupção, mas você vê agora na Inglaterra o primeiro ministro David Cameron sendo fotografado na classe económica do avião. Pode ser até certo grau uma medida populista. Mas são gestos que carregam um simbolismo muito grande. Eles estão percebendo que essa maneira de ser, de que os políticos se tornaram uma espécie de nova nobreza, não cabe. No Brasil, o primeiro passo é a conscientização. Na minha geração era normal você ver todos os políticos com carro oficial e a mulher do deputado fazendo compras. Mas isso não é normal. Trata-se do uso do dinheiro público.

Aqui muitas vezes um político, quando é cobrado por gastos, reclama que o valor é pequeno, uma ninharia. Mas você relata o caso de uma deputada sueca execrada por pagar táxi com verba pública.

Toda vez que um político ousa pegar um táxi várias vezes usando dinheiro público ele é execrado; vira manchete de jornal. E todas as vezes que um jornal denuncia uma coisa dessas, eles usam o mesmo texto: “Usou o dinheiro do contribuinte para fazer isso ou aquilo, apesar de morar perto duma estação de trem”. Existe uma noção de que políticos e juízes vivem como vive qualquer cidadão. Então por que ele vai ter um carro oficial? Por que  tem de ter um apartamento de duzentos metros quadrados? Por que  vai ter pensão vitalícia? Isso é um absurdo. Você cumpre dois mandatos e recebe dinheiro para o resto da vida. Na Suécia, quando o político sai do parlamento  recebe uma ajuda de transição. Ou seja, enquanto  tenta conseguir outro emprego recebe uma fração do que  recebia no parlamento. Mas isso é por um período determinado, um ano no máximo.

Outra dificuldade de aplicar o modelo sueco no Brasil poderia ser o fato de sermos menos ricos. Como resolver isso?

Não há como transpor mecanicamente uma cultura para outro país. Mas são ideias e inspirações que você pode ter. Medidas como a de corte de privilégios e a grande transparência podem ser adotadas. A Suécia já foi um país corrupto. Num trecho do livro comento que antes os cargos nos tribunais e no setor público eram literalmente vendidos e comprados. As universidades de Direito eram descritas em textos académicos como verdadeiros lamaçais. Agora, a transparência na gestão pública foram eles que a conceberam. E não é somente pelo dinheiro. Claro, se você quer chegar  ao ideal de uma sociedade com oportunidade para todos, em que todo cidadão tem direito de usufruir de serviços básicos de qualidade, já é um caminho mais longo. Sabemos que existe uma resistência extraordinária no Brasil.

Um modelo como o sueco precisa de mais carga tributária, o que não costuma ser muito popular por aqui.

Eles têm uma carga tributária maior, mas não é tão diferente. Já foi bem maior. Hoje a carga tributária na Suécia é mais ou menos 45% do PIB. Aqui são 36%. O grande problema do Brasil é a sonegação. Se você tem grande resistência das pessoas em pagar impostos no Brasil, você não vê o retorno dos impostos que você paga. Geralmente o trabalhador, porque as empresas não pagam. Fala-se muito em corrupção, mas a sonegação é um problema bem maior no Brasil do que a corrupção. As sociedades desenvolvidas passaram por um processo de evolução. O primeiro passo é a maior consciência e maior participação do cidadão. Nada vai mudar enquanto as pessoas não se importarem com política, porque o caminho da mudança é a política.

Colaborou Victor Turezo

COMENTÁRIO

O que se passa no Brasil é exactamente o que se passa em Portugal e é por isso que a vida política neste nosso país é uma verdadeira escandaleira. Já vai sendo tempo  dos senhores políticos  compreenderem que não são nobres nem fidalgos e que não devem viver como parasitas do erário público.

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