AS FUNDAÇÕES VATICANAS DEVIAM FAZER BENEFICIÊNCIA. EM VEZ DISSO ENRIQUECEM

“As fundações vaticanas deviam fazer beneficência. Em vez disso enriquecem”

Emiliano Fittipaldi investigou as contas do Vaticano durante quase dois anos

  |  REINALDO RODRIGUES/GLOBAL IMAGENS

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O livro Avareza expõe os luxos e as propriedades do Vaticano. O autor, Emiliano Fittipaldi, foi processado pela Igreja, que o acusa de violar a segurança nacional.

De onde surgiu a ideia de fazer este livro?  Comecei o livro há quase dois anos. No jornal onde trabalho, faço investigação sobre o poder, e um dos mais obscuros e fortes é o do Vaticano, por isso, quase naturalmente, comecei a escrever sobre o Vaticano. Num dado momento, antes de o Papa Francisco chegar, comecei a olhar para os negócios e a ligação entre a política italiana e o Vaticano. Fiz uma pequena investigação para o jornal e depois comecei a fazer mais coisas sobre o tema, e há dois anos percebi que o material que estava a recolher e a contar era demasiado para conseguir contá-lo em peças jornalísticas. Não iam ter o efeito suposto, não ia conseguir contar no jornal um sistema que é muito complexo.

E sente que atingiu esse objetivo?   Nunca se acaba de contar as coisas sobre o Vaticano. Existem muitas coisas que na minha opinião continuam ainda escondidas, muitos escândalos. Sobre a pedofilia não sabemos praticamente ainda nada. Mas estou contente com o trabalho que consegui fazer porque dá uma ideia bastante precisa, pela primeira vez na história, de quanto é rico o Vaticano. Mostro com documentos a riqueza financeira e imobiliária e como é que este dinheiro em muitos casos é mal gasto, nos interesses dos cardeais e quase nunca para os pobres.

Esta riqueza surpreendeu-o?  Na verdade, não. No sentido em que existem organizações anticlericais que já contavam que a Igreja era muito mais rica. Alguns diziam que esta tinha em Itália, Portugal e Espanha 20% da riqueza imobiliária de cada país. Isto é mentira, felizmente. Porém, só no Vaticano, a Igreja possui 15 mil milhões de euros. E o Vaticano tem apartamentos em Roma, Paris, Londres e na Suíça que valem quatro mil milhões de euros. Falamos de muito dinheiro, muitíssimo dinheiro. Sobretudo num pontificado que diz que a Igreja deve ser pobre e deve dedicar todas as atividades aos pobres.

Como é que a Igreja chegou a este ponto em que está enredada numa teia de propriedades, investimentos, contas bancárias?  Porque fez tudo aquilo que escrevo às escondidas nos últimos 50 anos. Este sistema funciona assim há muito tempo, o sistema do IOR [Instituto para as Obras de Religião], que é o banco do Vaticano, existe há mais de 60 anos e nunca ninguém foi lá meter o nariz, e ainda hoje não sabemos de verdade que coisas acontecem à sua volta e quanto dinheiro aí circula. Aconteceu porque a Igreja durante muitos anos se comportou como um banco comercial, pensando que o poder temporal lhe garantia também a assistência. A Igreja tinha todo o direito de ter propriedades imobiliárias, financeiras, mas apenas se estes bens fossem destinados, pelo menos como eles afirmam, a ajudar os mais pobres, os que precisam. Se em vez disso são dados aos políticos, aos jornalistas VIP, aos amigos recomendados ou se todo o dinheiro acaba utilizado para a sobrevivência do sistema, então alguma coisa está errada.

Porque o dinheiro que é enviado para a atividade da Igreja junto dos pobres é muito reduzido…  É muito pouco. Dou-lhe um exemplo: à parte do IOR, existe uma série de fundações no interior do Vaticano que têm contas no banco do Vaticano, como a Fundação Bento XVI, a João Paulo II ou a dos Legionários de Cristo, que gere um hotel em Jerusalém [o Instituto Pontifício Notre Dame]. É uma fundação que ganha oito milhões de euros/ano. Pensava que era uma fundação de beneficência. Em vez disso, é gerido como um hotel de cinco estrelas. É uma fundação vaticana com suites que custam 500 euros por noite. O que é que isto tem que ver com o Vaticano? Ou a fundação de Bento XVI? Pensava que todos os anos estas fundações deviam gastar todo o dinheiro que encaixam de fundações privadas, de que quem quer fazer beneficência, em vez disso esta fundação põe dinheiro de parte para depois investir. Fazem coisas que não se percebe. A Fundação João Paulo II tem em caixa dez milhões de euros. São fundações vaticanas que deviam fazer beneficência. Em vez disso, enriquecem. Isto não é aceitável, na minha opinião.

O Vaticano deu-lhe alguma explicação para este enriquecimento?   Não têm justificações para dar, porque os documentos são muito claros. Em Itália, quando vou às televisões falar disto, quase nunca há ninguém do Vaticano para discutir comigo. O IOR ganhou 800 milhões de euros em dois anos e deu ao fundo de beneficência de missões no estrangeiro 17 mil euros. Tem de haver qualquer coisa de errado. O Óbolo de São Pedro em vez de gastar todos os anos o dinheiro que lhe chega, chegou a ter na sua conta quase 400 milhões de euros e quase nenhum desse dinheiro – e isso não digo eu diz a comissão Moneyval que investigou e de quem encontrei as cartas – é gasto para ajudar os mais pobres, as vítimas de guerra… Mas é gasto, quase unicamente em Roma para a Cúria Romana e para os cardeais, isto é um problema. O negócio, por exemplo, dos hospitais tornou-se num meio para o Vaticano ser sempre mais rico, não para ajudas os doentes. Porque os doentes são ajudados com o dinheiro do sistema de saúde nacional italiano e não com o dinheiro do Vaticano. Esse dinheiro nem sequer é gasto na totalidade, mas o que sobra é metido no Vaticano, nos bancos, para depois investir nos mercados internacionais e isto é um problema. Não há justificações que possam ser dadas para isto. Na verdade ninguém disse nada. A única coisa que dizem é que eu não podia publicar estes documentos, que sou um ladrão, e que devo pagar. Mas ninguém disse que não é verdade.

Acredita que se criou uma rede com vista ao lucro e à riqueza material dentro do Vaticano?  Sim. Penso que nos anos, sobretudo nos anos de João Paulo II criou-se este sistema. É um sistema económico…

Esqueceram-se dos fiéis e da missão da Igreja?  Um pouco, sim. Não todos. Porque conheço muitos padres fora do Vaticano que são religiosos e que vivem verdadeiramente a missão da Igreja, com despesas controladas. Em Itália há um provérbio que diz: o peixe cheira mal da cabeça. Isto é um paradoxo. O corpo da Igreja (os padres), na minha opinião, são na maioria sãos, por sua vez a cabeça cheira mal e cheira mal quase toda. Espero que este Papa venha a mudar. Mas por agora não o fez.

Como podemos explicar que os cardeais e os bispos tenham criado este sistema? Esqueceram-se da missão da Igreja?  Não sei se se esqueceram. Não seguem as regras do Evangelho, isso é certo, não seguem as regras da pobreza das várias congregações religiosas a que pertencem. São pecadores. Eles dizem que é normal que ocasionalmente existam casos, somos homens de modo que é normal que existam pecadores. Eu digo, que é verdade que é normal que haja, a coisa que faz impressão é que são muitos. No Vaticano existem 800 residentes, são pouquíssimas as pessoas que vivem lá, em proporção são demasiados os pecadores. Sobretudo porque eles têm uma responsabilidade acrescida em relação a nós laicos. Porque eles fizeram uma escolha, que se baseia precisamente na moralidade. E deviam, sobretudo para os fieis, para quem é católico como eles, ser um exemplo. E se eles são os primeiros a viver no luxo e a não respeitar os ditames do Evangelho que exemplo podem dar? Por isso, é que este livro é tão escandaloso.

“No Vaticano existem 800 residentes, são pouquíssimas as pessoas que vivem lá, em proporção são demasiados os pecadores”

Depois de ler o livro, o que deve um crente pensar do Vaticano?  Que deve mudar muito mais do que o Papa Francisco começou a fazer. Que o Vaticano deve verdadeiramente transformar-se numa estrutura mais pobre…

E devem ser os crentes a pedir isso ao Vaticano, a fazer pressão para essa mudança?  Deve haver uma pressão. Não sou crente, não sei que coisas são preciso fazer, eu simplesmente conto histórias que, na minha opinião, têm interesse público. Porém, se os fiéis com este livro podem saber que coisas acontecem, podem pedir contas pelo dinheiro. Dizer: eu dou-te dinheiro, mas só se tu me mostras de onde ele parte e onde chega. Mas têm de mostrar, devem ser transparentes. Mas verdadeiramente transparentes. Porque agora dizem que os balanços da Santa Sé são transparentes. É verdade, eles publicam os balanços e antes não o faziam, mas só mostram o número final. Não todos os movimentos. Caso contrário este livro não teria acontecido, se eles fossem verdadeiramente transparentes. Isso significava que estes documentos já estavam publicados por eles. Por que não os publicaram? Porque é escandaloso o que está aqui. Por isso, digo que é preciso uma verdadeira transparência e aquela que começou a fazer o Papa Francisco é só o começo.

Não acredita que o Papa Francisco vá conseguir mudar o Vaticano ?  Eu acredito que ele está a tentar a sério. Alguns dizem que ele é um bluff, é um jesuíta e é apenas um homem de marketing e de imagem. Eu penso, com muita cautela porque a Igreja é um sistema complexo e o Papa não pode fazer tudo sozinho, que o Papa Francisco pode mudar mesmo as coisas. Porém, é preciso muito mais tempo do que aquele que nos fizeram crer.

Depois há também aqueles dentro do Vaticano que estão contra o Papa…  …Quase todos. Porque nenhum dos cardeais quer perder os privilégios e os poderes que têm há tanto tempo e isto é um facto. Vejamos, nenhum cardeal foi expulso das suas casas e foi metido numa casa de 50 metros quadrados para dar lugar a quem precisa. Alguns dizem que estes prédios no Vaticano e em Roma são muito grandes e muito bonitos, porque todas as casas são assim em Roma. Esta é a justificação deles. Porém, em todas estas casas se podiam fazer tantas coisas. Com todo aquele dinheiro podiam fazer-se centros de recuperação, ajudar de verdade os refugiados. Fiquei muito contente que o Papa tenha ido a Lesbos e tenha trazido 12 refugiados, três famílias, mas é apenas um símbolo, um sinal, embora muito importante. Não serviu de nada porque a Áustria um dia depois fechou a fronteira com Itália por isso não serve de nada e demonstra também que a força politica do Papa é muito menor do que pensamos. Mas 12 pessoas em relação àquilo que o Vaticano podia fazer com todo o dinheiro que tem é uma gota no oceano. Portanto, o Papa deve estar atento porque estas coisas são vistas por muitos como operações de marketing e não operações reais. Ainda assim, eu penso que também ações simbólicas são muito importantes e muito positivas.

O Papa começou esta investigação às contas. No fim, acha que ele pode acabar como uma vítima do sistema  Mas ele não é uma vítima. Ele deve estar muito atento porque os interesses que há no Vaticano são muitos. Ele veio para o Vaticano para mudar as coisas, seja no ponto de vista da doutrina, quer uma Igreja aberta ao mundo, quer do ponto de vista da reforma da Cúria. E, portanto, está muito sozinho nesta vontade de transformação e por isso há muita oposição interna. A coisa que me espanta é que ele com um livro como este podia cavalgá-lo, dizendo ‘veem que tudo aquilo que eu denunciei nestes anos era verdade. Está aqui’. Em vez disso, ele teve uma reação completamente diferente. Na minha opinião, neste caso faltou-lhe coerência, não consigo explicar a sua reação.

“Francisco não é uma vítima. Deve estar muito atento porque os interesses que há no Vaticano são muitos”

Disse que tudo isto começou há 50 anos… … diz-se em latim pecunia non olet (o dinheiro não cheira mal). A Igreja no curso da história sempre teve algum poder, grande parte das propriedades eram da Igreja e depois foi expropriada. Quando aconteceu o Tratado de Latrão, ou seja, os acordos entre Mussolini (o regime fascista) e a Igreja foi restituído muito dinheiro e uma série de propriedades. Muito dinheiro foi usado em investimentos imobiliários nos EUA, Paris, Londres (na New Bond Street existem um grupo de apartamentos, o edifício da joalharia Bulgari pertence ao Vaticano), existem quatro ou cinco sociedades na Suíça. Tudo isto foi aberto depois do Pacto de Latrão, de 1929 em diante. Depois do fim da guerra, com o advento da democracia italiana, com a criação de um Estado do Vaticano autónomo decidiu-se abrir um banco – o Banco Vaticano – e dali começaram muitos escândalos, porque o banco nunca respeitou as regras anti-branqueamento como o resto dos países europeus, nunca falou com os outros estados. E assim muitos criminosos que queriam branquear o seu dinheiro ilícito abriam conta no IOR e o Vaticano deixou-os entrar. Foi daí que partiu o problema. E depois aquele banco foi utilizado também por ilícitos feitos por alguns monsenhores, porque todos podiam ter uma conta ali. A Causa dos Santos, por exemplo, no livro faço um parágrafo em que explico quando custa fazer um santo. Descobri que para fazer um santo (pensava que era grátis) é preciso gastar centenas de milhares de euros. Por quê? Porque há muita gente que se alimenta deste sistema. É um negócio no interior do Vaticano. Isto gera muito dinheiro, à parte dos processos de João Paulo II ou Padre Pio, que foram gratuitos, mas para encontrar milagres devem pagar. E isto é inaceitável. Mas outra coisa inaceitável é quem o pedido, todas as congregações religiosas, abre uma conta e são centenas e algumas congregações usaram o dinheiro dos fiéis para estas santificações para fazer investimentos financeiros, e aí existe o risco de branqueamento, porque não há controlo. Agora os controlos melhoraram, dizem eles, mas não sabemos porque não nenhuma verificação.

Quem sai mais prejudicado com estas ações: o Estado italiano ou os católicos   Os fiéis de todo o mundo são os mais prejudicados porque dão todos os anos centenas de milhares de euros para a sobrevivência da Igreja. O Estado italiano, que são os cidadãos italianos, é de alguma forma enganado quando o sistema de saúde nacional dá dinheiro para os hospitais católicos que não usam este dinheiro para os doentes, mas para fazer operações financeiras e quando – mas isto fazem-no voluntariamente – dão uma parte dos impostos à Igreja, através da Conferência Episcopal Italiana (que não é o Vaticano). Todos os anos a conferência tem mil milhões de euros e este dinheiro – embora existam publicidades na televisão para mostrar que ajudam os pobres, as crianças doentes, as vítimas da guerra – 80% acaba a ser gasto nas despesas dos padres, para construir novas igrejas, ajudar no balanço das dioceses, nos cursos de catequese. Só uma pequena parte – 20% – serve para ajudar quem tem verdadeiramente necessidade. Até o governo italiano a um determinado ponto se chateou e disse que não era possível e que deviam mudar as percentagens. Não mudou nada.

As pessoas que lhe mostraram estes documentos internos tinham mais interesse em proteger o Papa ou queriam travar a ação dele ?   Alguns estavam chateados porque a reforma não avançava e esperavam desta forma que fosse mais rápido. Outros, porém, deram-me documentos porque esperavam que alguns crimes cometidos por alguns dos seus rivais os metessem em jogo, outros fizeram-no por um sentido de transparência real. Cada um tinha as suas motivações. Às vezes morais outras vezes pessoais. Mas para um jornalista isso não é importante, o importante ter notícia, confirmá-la e que esta seja interessante para as pessoas.

 

 

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