TURQUIA, DEPOIS DO GOLPE COMEÇA O GOLPE – algumas vozes de Angola

Turquia, depois do golpe começa o golpe

  • 02.08.2016 • 00h00 • atualizado às 07h50

Sabemos o que se está a passar na Turquia? Depois da alegada tentativa falhada de golpe de estado, a 15 de Julho, o presidente Recep Tayyip Erdogan iniciou uma brutal “caça às bruxas” em vários sectores da sociedade, contra todos os seus opositores. Das notícias que nos chegam da Turquia tudo é duvidoso, desde a própria tentativa de golpe até às medidas extremas que o chefe de estado turco tem tomado desde então.

Em números, fica aqui um pequeno e assombroso resumo dos factos pós-15 de Julho:
– 2.745 juízes e fiscais de justiça presos;

– 17 jornalistas-chave detidos;

– Mais de 131 meios de comunicação encerrados, entre os quais 45 jornais, 15 revistas, 16 canais de televisão, 23 rádios, 3 agências de notícias e 29 publishers;

– Para além de 15 universidades, foram encerradas 1043 escolas privadas e residências de estudantes;

– 35 instituições médicas encerradas;

– 1.229 fundações e associações, mais 19 uniões sindicais foram ilegalizadas;

– mais de 60.000 pessoas ficaram sem trabalho, entre as quais 21.000 professores, reitores, funcionários do Ministério da Educação, etc.

– 1.684 militares expulsos das forças armadas;

– 10.000 militares presos bem como 2.900 agentes da polícia
Não fossem a educação, a justiça e a comunicação social alguns dos pilares mais importantes de qualquer estado democrático, quase não desconfiaríamos das intenções de Erdogan. O que se está a passar na Turquia bem que poderia ser um manual de instruções para a destruição, eficaz e maquiavélica, de democracias frágeis. Não nos podemos esquecer que em 2012 a Turquia foi o país que mais jornalistas prendeu. O país nunca foi conhecido por defender a liberdade de expressão.

Mas ainda que a tentativa de golpe de Estado tenha acontecido efectivamente, como é que se pode justificar esta limpeza ideológica que está a ser levada a cabo na Turquia?

É certo que o exército turco interveio várias vezes na política do país ao longo das últimas décadas. Desde 1960, houve quatro golpes de estado no país e são conhecidas as tensões entre o exército e o partido de Erdogan. Considerado um líder autoritário por muitos sectores da sociedade, com esta reacção violenta e excessiva, Erdogan não faz mais que confirmar a sua fama com acções objectivamente anti-democráticas, debaixo do véu do estado de emergência.

Não admira que muito boa gente desconfie que o próprio 15 de Julho não tenha passado de uma espécie de “auto-golpe”, uma encenação que tinha como único objectivo iniciar uma verdadeira purga política.

Seja como for, Erdogan endurece o seu discurso dia após dia, dizendo que o Ocidente deve preocupar-se com os seus próprios assuntos, ignorando propositadamente a importância que tem a instabilidade da Turquia no complicado mapa geo-político mundial. A Turquia, para além de ser membro da NATO, tem um dos maiores exércitos do mundo e desempenha um papel crucial na guerra da Síria e na crise dos refugiados. Não se pode esperar que o Ocidente vire a cara por muito mais tempo, enquanto Erdogan manda e desmanda no seu país.

Para nós, angolanos, quando vemos as notícias que chegam da purga de Erdogan na Turquia, é impossível não associá-la à que o nosso país sofreu em 1977, a 27 de Maio. Sabemos quanto tempo demoram a sarar certas feridas e sabemos quanto custa conquistar a democracia e a liberdade. Conhecemos bem o sabor que o medo deixa na boca. Não se deseja isso a nenhum povo.

De olhos bem atentos, vamos continuar a ouvir as últimas vozes resistentes que nos chegam de lá, através do Twitter, através dos meios de comunicação estrangeiros, vozes que resistem ao medo e à repressão. Vozes que merecem eco, como a do jornalista Mahir Zeynalov, que foi expulso do país porque alguns dos seus tweets foram considerados ofensivos para membros do governo. Zeynalov tem sido incansável nas redes sociais e recentemente traçou um breve mas poderoso perfil dos 17 jornalistas presos este fim de semana. Todos eles críticos. Todos eles presos. Todos nós, no mínimo, desconfiados.

COMENTÁRIO: Depois desta gigantesca purga ordenada por Erdogan só se pode chegar a uma conclusão: A Turquia vai sem dúvida mergulhar muito em breve num monstruoso banho de sangue. Este homem não hesitará em pisar os mais elementares direitos humanos, aproveitando-se de um golpe de estado estranhamente abortado, para se poder livrar de todos os seus inimigos políticos e esmagar, sem dó nem piedade, a oposição que se opõe ao seu desejo de poder absoluto. O seu objectivo principal é conseguir restaurar a pena de morte na Turquia e assim que o tiver conseguido, irá sem dúvida fazer o maior morticínio de militares e altos funcionários turcos que a Turquia jamais conheceu. Será que o mundo Ocidental, poderá, depois disso, contar com a Turquia para obter um equilíbrio de forças entre o Ocidente cristão e o Oriente muçulmano. Será que depois disso interessará de facto manter a Turquia na Otan  e abrir-lhe as portas para a entrada na União Europeia? É muito preocupante perceber-se que existem muitos países europeus demasiado enamorados pela Turquia, que parecem dispostos a pagar esse estúpido preço.

O pica pau angolano

 

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