SNR. EMBAIXADOR, COM TODO O RESPEITO QUE NÃO NOS MERECE – um artigo de Fernanda Câncio.

Sr. embaixador, com todo respeito que não nos merece

 Não vi ainda, como o resto do país, a totalidade da entrevista que os dois filhos do embaixador do Iraque, Haider e Ridha, deram à SIC e que passará hoje no Jornal da Noite. Mas uma coisa sei, dos excertos que foram para o ar: estes dois miúdos de 17 anos estão a gozar connosco. O que se calhar até se desculpa a miúdos de 17 anos, não fosse dar-se o caso de serem filhos de um embaixador e só poderem ter dado a entrevista porque o pai permitiu, a entrevista que o pai quis – o pai que colocou no site da embaixada um comunicado sobre os acontecimentos alegando que os filhos agiram em legítima defesa mas que se esconde atrás deles.

Leiamos o comunicado – com a ajuda do tradutor do Google, já que o embaixador achou por bem publicá-lo em árabe e apenas em árabe, o que só pode ser interpretado como um sinal de soberba e desprezo pelo país onde funciona. Não é um bom ponto de partida para a alegação de vitimização que faz, a de que os filhos começaram por ser agredidos e insultados por serem árabes e muçulmanos e de que agiram “em legítima defesa”, tendo até sido apresentada queixa às autoridades (quando? Onde? Por quem?).

O comunicado prossegue dizendo que um dos filhos do embaixador estuda aviação civil, é um estudante “destacado” e que o carro em que os dois se deslocavam é dele, e não, como os media dizem, do corpo diplomático. Este ponto é interessante, já que os dois têm 17 anos, e em Portugal para conduzir um automóvel é preciso ter no mínimo 18 – a não ser que se aplique uma regra diferente a estrangeiros. A seguir, o comunicado ameaça: serão tomadas medidas caso o que é publicado nos media portugueses contradiga a realidade. E termina dizendo que os rapazes regressaram ao local onde tinham sido agredidos – “um pequeno restaurante” (outros relatos falam de “bar” ou “discoteca”) – porque perceberam que tinham perdido as chaves de casa e reencontraram um dos agressores, que os cobriu de insultos e tentou fazer chantagem (esta parte pode ser má tradução) e bateu num deles. A seguir, o comunicado fica lacónico: “Os filhos do embaixador reagiram e a seguir foram à esquadra comunicar o incidente.” E pronto, acaba. Não existe uma palavra sobre o estado do jovem hospitalizado, que à data da comunicação era ainda considerado em perigo de vida, quanto mais um lamento ou pedido de desculpas. Diplomacia zero.

Entendamo-nos: o embaixador Saad Mohammed Ali demonstra neste comunicado não ter qualquer noção das suas obrigações e responsabilidades, comportando-se como um qualquer pai galinha e claramente contando com a imunidade diplomática para que os filhos e ele próprio, como responsável por eles, não sejam chamados à responsabilidade. E sendo o pai assim não admira a atitude surreal dos filhos na entrevista. Um deles admite que pontapeou Rúben quando este estava no chão, como se fosse uma coisa normal e não um crime – que, no caso de se tratar de ofensa grave à integridade física, implica uma pena até 10 anos de prisão (a que pode somar-se a omissão de auxílio, outro crime previsto no Código Penal, prisão até dois anos). E o outro chega mesmo ao ponto de afirmar que ele e o irmão, tanto como Rúben, são “vítimas das circunstâncias”; que coisas como estas “sucedem todos os dias em Portugal”, em contextos “com jovens e álcool” (uma menção interessante, tratando-se, aparentemente, de muçulmanos) e que “os media estão a exagerar”.

Mas o melhor de tudo na entrevista é mesmo dizerem, magnânimos, que não querem beneficiar de imunidade diplomática. Como se esta não fosse a única coisa que justifica que se possam dar ao luxo de dar uma entrevista à TV falando do caso e admitindo descontraidamente o cometimento de crimes, em vez de estarem a ser interrogados pela polícia. Quaisquer outros jovens no lugar deles estariam calados, por conselho jurídico, para não dizerem nada que os incriminasse. Eles não estão nada ralados com isso, nem o papá, o embaixador. É bom que alguém lhes faça saber que isto não é o faroeste.

Fernanda Câncio

COMENTÁRIO: Ou muito me engano,  ou este grave incidente diplomático acabará por terminar em águas de bacalhau. A actual imagem do nosso país no mundo não nos dá força suficiente para podermos exigir uma solução justa. Pergunto se valerá a pena subscreverem-se acordos internacionais com países de soberanias políticas duvidosas, como o actual Iraque?

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